7.10.09
6.10.09
Deborah
Jon And Vangelis
I read your letter, I got it just the other day...
You seem so happy, so funny...how time melts away
It's such a pleasure, to see you growing
And how you sending your love to the air today
I think of Heaven...each time I see you walking there
And as you're walking, I think of children everywhere
It's in your star sign...you growing stronger
I can't believe you...so good to care
Thru enchantment, into sunlight
Angel's touch...your eyes...
Your highness...electric...so surprise
Is this your first life...?
It seems as though you have lived before
You help me hold on...
You have a heart like an open door
You sing so sweetly...my love adores you
She does, she's thinking of you right now
I know...
The summer's coming...
I'll keep in touch so you're not alone
Then like the swallow, you'll fly away like birds have flown
So let me tell you...how much I Love You
I'd make the songbirds sing... for you again...
Well now it's goodnight...
Sweet Angel...read this letter...
Well...
John Lennon - Beautiful Boy (Darling Boy)
Close your eyes,
Have no fear,
The monsters gone,
He's on the run and your daddy's here,
Beautiful,
Beautiful, beautiful,
Beautiful Boy,
Before you go to sleep,
Say a little prayer,
Every day in every way,
It's getting better and better,
Beautiful,
Beautiful, beautiful,
Beautiful Boy,
Out on the ocean sailing away,
I can hardly wait,
To see you to come of age,
But I guess we'll both,
Just have to be patient,
Yes it's a long way to go,
But in the meantime,
Before you cross the street,
Take my hand,
Life is just what happens to you,
While your busy making other plans,
Beautiful,
Beautiful, beautiful,
Beautiful Boy,
Darling,
Darling,
Darling Sean.
Let me tell you what I want to say
You're the only one who can make me feel this way
My kind of lady
No better love could I embrace
No better heart, no other face
Can quite compare with you
You came along and then you mend my broken dreams
I was so down and then as foolish as it seems
You gave me your affection
Yeah baby you came through
Well make it you'll see
In spite of those who say its wrong
This time we feel that we belong
Now we can truly say
Well be together and that's all well ever need
Well love each other, that's the way its gonna be
And nothing under the sun of moon
Can make us be apart
Oh my honey
You know Ill love you every day
When things go wrong well find a way
Im so glad I met you
Much more than I can ever say
Were making plans and holding hands just like before
Well try again, well make amends along the road
Its felling good, just like it should, this time we know
Well share each other's happiness for now and evermore
I've been wasting my life away
I've got a message for you today
To tell you that you are
My kind of lady
I'm not the same since I met you
All of my dreams had fallen through
And then you came along
One magic night when things went right it was so fine
Looked in your eyes and realized that you were mine
And nothing under the sun of moon
Can make us be apart
Oh my baby
You know Ill love you all the way
When times get hard well smile and say
I'm so glad I met you
Ill love you more and more each day
Were making plans and holding hands just like before
Well try again, well make amends along the road
Its felling good, just like it should, this time we know
Well share each other's happiness for now and evermore
Apenas porque ainda não o tinha aqui.
Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
25.9.09
O Que Há
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
10.9.09
Alice Cooper
Dear darlin' surprised to hear from me?
Bet you're sittin' drinkin' coffee, yawnin' sleepily
Just to let you know
I'm gonna be home soon
I'm kinda awkward and afraid
Time has changed your point of view
How you gonna see me now
Please don't see me ugly babe
'Cause I know I let you down
In oh so many ways
How you gonna see me now
Since we've been on our own
Are you gonna love the man
When the man gets home
Listen darlin' now I'm heading for the west
Straightened out my head but my old heart is still a mess
Yes I'm worried honey
Guess that's natural though
It's like I'm waiting for a welcome sign
Like a hobo in the snow
How you gonna see me now
Please don't see me ugly babe
'Cause I know I let you down
In oh so many ways
How you gonna see me now
Since we've been on our own
Are you gonna love the man
When the man gets home
And just like the first time
We're just strangers again
I might have grown out of style
In the place I've been
And just like the first time
I'll be shakin' inside
When I walk in the door
There'll be no place to hide
How you gonna see me now
please dont see me ugly, babe
'cause i feel like i let you down
in oh so many ways
How you gonna see me now
Please don't see me ugly babe
'Cause I know I let you down
In oh so many ways
How you gonna see me now
Since we've been on our own
Are you gonna love the man
When the man gets home
5.9.09
A chuva chove...
A chuva chove mansamente...como um sono
Que tranquilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente...Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine... E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono..."
Cecília Meirelles
1.9.09
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis
Tem momentos que valem por uma vida.
31.8.09
DESPERTAR É PRECISO
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada.
Será preciso que passemos por grandes guerras, para que o Brasil venha a ser um pouco mais sério?
- Álvaro de Campos (a.k.a. Fernando Pessoa)
Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
26.8.09
As Sem-Razões do Amor
Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor
16.8.09
Rubem Alves
"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.
Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia.Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.
Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham... Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.
O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.
Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou... Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias.
Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?
Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram..."
"Sobre o tempo e a eternidade" Campinas: Ed. Papirus, 1996.
11.8.09
10.8.09
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança...
Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Cecília Meireles
29.7.09
Três dias de sol, quatro anos de sombra
Publicada em 30/10/2008 às 12h24m
Artigo da leitora Karina Miziara
"E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?/ e agora, você?/ você que é sem nome,/ que zomba dos outros,/ você que faz versos,/ que ama protesta,/ e agora, José?
Está sem mulher,/ está sem discurso,/ está sem carinho, /já não pode beber,/ já não pode fumar,/ cuspir já não pode,/ a noite esfriou,/ o dia não veio/ o, bonde não veio,/ o riso não veio,/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou,/ e agora, José?
E agora, José ?/ Sua doce palavra,/ seu instante de febre,/ sua gula e jejum,/ sua biblioteca,/ sua lavra de ouro,/ seu terno de vidro,/ sua incoerência,/ seu ódio - e agora?
Com a chave na mão/ quer abrir a porta,/ não existe porta;/ quer morrer no mar,/ mas o mar secou;/ quer ir para Minas,/ Minas não há mais/ José, e agora?
Se você gritasse,/ se você gemesse,/ se você tocasse/ a valsa vienense,/ se você dormisse,/ se você cansasse,/ se você morresse./ Mas você não morre,/ você é duro, José!
Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia,/ sem parede nua/ para se encostar,/ sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, pra onde?
("José" - Carlos Drummond de Andrade)
Diante da profunda tristeza que me acometeu desde o anúncio do término das apurações no Rio no último domingo, recorro aos versos de um mineiro apaixonado pelo Rio, assim como o Gabeira, para tentar responder a esta pergunta: e agora, Rio?
O que fazemos com os dias em que vimos pessoas que historicamente anulam seus votos por terem total ojeriza aos políticos, votarem pela primeira vez em suas vidas? O que fazemos com nossa emoção de vestir uma roupa verde por sentirmos orgulho de defender uma pessoa ética, inteligente, e que não apaga seu passado de luta - pelo contrário, o traz como lição e orgulho - só para citar algumas de suas qualidades? O que fazemos com o posicionamento de pessoas famosas e anônimas que resolveram se envolver com política, coisa que estava fora de moda há tempos em nosso adormecido país? O que fazemos com o sonho, que acalentamos, de eleger, pela primeira vez depois de anos de limbo, uma pessoa compromissada com nossa cidade, e não com eleições presidenciais, partidos políticos, cargos, enriquecimento ilícito e toda gama de sujeira e podridão que aprendemos a conhecer como sinônimo de política?
O próprio Gabeira referiu-se a uma recuperação da palavra "política" experienciada pelo carioca nessas últimas eleições. Acredito que aprendemos lições... por mais que tentemos ignorar esta realidade, e que pensemos estarmos à parte desta corja de governantes simplesmente dizendo: "odeio políticos", estamos fazendo política! Quando não nos interessamos por uma eleição, ou preferimos viajar para aproveitar o sol, ou simplesmente guardamos para nós mesmos nossa indignação com o que lemos passivamente nos noticiários, estamos fazendo política! Política permissiva e cúmplice de quem ganha com nossa apatia! Sendo assim, resolvi dividir minha decepção com aqueles que sentem como eu, para tentar fazer com que não percamos tudo que conquistamos até aqui e que não perdemos com menos de 2% de diferença.
Termino esse texto lembrando outro ilustre mineiro, Guimarães Rosa, que disse algo mais ou menos assim: "Descasque um mineiro e encontrarás um político". E nós, se descascarmos um carioca, o que encontraremos?
Karina B. Miziara
27.7.09
Pedaço de Mim
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
23.7.09
Não se ama por partes
por Patrícia 'Ticcia' Antoniete
de Porto Alegre [RS]
[30/10/2008]
Eu espero que você me ame mesmo depois que o tempo fizer do meu corpo uma lembrança vaga da mulher que conheceste, mesmo depois que, de menina, só me restem os olhos e o brilho que puseste neles. Espero que você me ame mesmo depois de descobrir meus medos, meu segredos, minhas grutas, meus alçapões, mesmo depois de descobrir as feras em meus porões, minhas vergonhas mais tristes, minhas feiúras tão bem guardadas e escondidas, minhas dores atrozes, meus fantasmas, meus naufrágios, meus cadáveres insepultos.
Espero que você me ame além do amanhecer de uma noite perfeita, além do entardecer de uma tarde bonita. Espero que você me ame em plena tempestade, no meio do vento, do frio, na escuridão sem estrelas, no cansaço de porto nenhum, no desespero dos braços que não obedecem, na desesperança dos barcos que não voltam, no vazio.
Espero que você me ame mesmo depois de ver minhas mediocridades, minhas pequenezas, as infimidades que povoam minha vida, minhas cicatrizes, minhas garras, minhas presas, minhas unhas, as fraturas das minhas asas, meu medo de voar. Espero que você me ame depois de conhecer as minhas piores fraquezas, as minhas mais terríveis memórias, todas as dores que eu jamais serei capaz de superar.
Espero que você me ame imperfeita, triste, fraca, pequena, frágil, pouca e para você isso seja mais um motivo para me amar. Porque tudo isso me dimensiona e me configura, porque é também disso que eu sou feita, embora, mesmo para mim, seja tão doído de enxergar. Porque é assim que eu posso te amar: nua, inteira, incompleta.