26.8.09

As Sem-Razões do Amor

Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor

21.8.09

Fiz um pequeno vídeo aos formandos de Biblio da UFMG, turma 2009.1
Vejam aqui:

16.8.09

Saúde Mental
Rubem Alves

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia.Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham... Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou... Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram..."

"Sobre o tempo e a eternidade" Campinas: Ed. Papirus, 1996.

11.8.09

Science is like sex: sometimes something useful comes out, but that is not the reason we are doing it.
— Richard Feynman

10.8.09

Reinvenção

A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança...
Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Cecília Meireles

29.7.09

Artigo que minha esposa escreveu, quando da vitória de Paes sobre Gabeira, no Rio de Janeiro (2008).

Três dias de sol, quatro anos de sombra

Publicada em 30/10/2008 às 12h24m
Artigo da leitora Karina Miziara

"E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?/ e agora, você?/ você que é sem nome,/ que zomba dos outros,/ você que faz versos,/ que ama protesta,/ e agora, José?

Está sem mulher,/ está sem discurso,/ está sem carinho, /já não pode beber,/ já não pode fumar,/ cuspir já não pode,/ a noite esfriou,/ o dia não veio/ o, bonde não veio,/ o riso não veio,/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou,/ e agora, José?

E agora, José ?/ Sua doce palavra,/ seu instante de febre,/ sua gula e jejum,/ sua biblioteca,/ sua lavra de ouro,/ seu terno de vidro,/ sua incoerência,/ seu ódio - e agora?

Com a chave na mão/ quer abrir a porta,/ não existe porta;/ quer morrer no mar,/ mas o mar secou;/ quer ir para Minas,/ Minas não há mais/ José, e agora?

Se você gritasse,/ se você gemesse,/ se você tocasse/ a valsa vienense,/ se você dormisse,/ se você cansasse,/ se você morresse./ Mas você não morre,/ você é duro, José!

Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia,/ sem parede nua/ para se encostar,/ sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, pra onde?

("José" - Carlos Drummond de Andrade)

Diante da profunda tristeza que me acometeu desde o anúncio do término das apurações no Rio no último domingo, recorro aos versos de um mineiro apaixonado pelo Rio, assim como o Gabeira, para tentar responder a esta pergunta: e agora, Rio?

O que fazemos com os dias em que vimos pessoas que historicamente anulam seus votos por terem total ojeriza aos políticos, votarem pela primeira vez em suas vidas? O que fazemos com nossa emoção de vestir uma roupa verde por sentirmos orgulho de defender uma pessoa ética, inteligente, e que não apaga seu passado de luta - pelo contrário, o traz como lição e orgulho - só para citar algumas de suas qualidades? O que fazemos com o posicionamento de pessoas famosas e anônimas que resolveram se envolver com política, coisa que estava fora de moda há tempos em nosso adormecido país? O que fazemos com o sonho, que acalentamos, de eleger, pela primeira vez depois de anos de limbo, uma pessoa compromissada com nossa cidade, e não com eleições presidenciais, partidos políticos, cargos, enriquecimento ilícito e toda gama de sujeira e podridão que aprendemos a conhecer como sinônimo de política?

O próprio Gabeira referiu-se a uma recuperação da palavra "política" experienciada pelo carioca nessas últimas eleições. Acredito que aprendemos lições... por mais que tentemos ignorar esta realidade, e que pensemos estarmos à parte desta corja de governantes simplesmente dizendo: "odeio políticos", estamos fazendo política! Quando não nos interessamos por uma eleição, ou preferimos viajar para aproveitar o sol, ou simplesmente guardamos para nós mesmos nossa indignação com o que lemos passivamente nos noticiários, estamos fazendo política! Política permissiva e cúmplice de quem ganha com nossa apatia! Sendo assim, resolvi dividir minha decepção com aqueles que sentem como eu, para tentar fazer com que não percamos tudo que conquistamos até aqui e que não perdemos com menos de 2% de diferença.

Termino esse texto lembrando outro ilustre mineiro, Guimarães Rosa, que disse algo mais ou menos assim: "Descasque um mineiro e encontrarás um político". E nós, se descascarmos um carioca, o que encontraremos?

Karina B. Miziara

27.7.09

Se alguém, algum dia, conseguiu falar de saudade, este foi Chico.

Pedaço de Mim
Chico Buarque

Composição: Chico Buarque

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

23.7.09

Um texto muito bonito que achei na Internet...

Não se ama por partes

por Patrícia 'Ticcia' Antoniete
de Porto Alegre [RS]
[30/10/2008]

Eu espero que você me ame mesmo depois que o tempo fizer do meu corpo uma lembrança vaga da mulher que conheceste, mesmo depois que, de menina, só me restem os olhos e o brilho que puseste neles. Espero que você me ame mesmo depois de descobrir meus medos, meu segredos, minhas grutas, meus alçapões, mesmo depois de descobrir as feras em meus porões, minhas vergonhas mais tristes, minhas feiúras tão bem guardadas e escondidas, minhas dores atrozes, meus fantasmas, meus naufrágios, meus cadáveres insepultos.

Espero que você me ame além do amanhecer de uma noite perfeita, além do entardecer de uma tarde bonita. Espero que você me ame em plena tempestade, no meio do vento, do frio, na escuridão sem estrelas, no cansaço de porto nenhum, no desespero dos braços que não obedecem, na desesperança dos barcos que não voltam, no vazio.

Espero que você me ame mesmo depois de ver minhas mediocridades, minhas pequenezas, as infimidades que povoam minha vida, minhas cicatrizes, minhas garras, minhas presas, minhas unhas, as fraturas das minhas asas, meu medo de voar. Espero que você me ame depois de conhecer as minhas piores fraquezas, as minhas mais terríveis memórias, todas as dores que eu jamais serei capaz de superar.

Espero que você me ame imperfeita, triste, fraca, pequena, frágil, pouca e para você isso seja mais um motivo para me amar. Porque tudo isso me dimensiona e me configura, porque é também disso que eu sou feita, embora, mesmo para mim, seja tão doído de enxergar. Porque é assim que eu posso te amar: nua, inteira, incompleta.

17.7.09

Texto que escrevi para os formandos em Biblioteconomia de 2009.1
Em primeira mão...

Uma breve história da história.

O que é o homem? E para quê é o homem?
Como disse Guimarães Rosa - três dias antes de sua morte - "a gente morre para provar que viveu. As pessoas não morrem; ficam encantadas".
Desde que existe este homem, efêmero, existe a busca do transcendente, do numinoso, do eterno. Essa vontade de "existir", para além da sua existência. De atirar flechas e comungar com o futuro, mover-se no tempo como se move no espaço.

Há muitas formas de perpetuar-se... dentre elas, gerar vida, criar arte e registrar a história. Vida, arte e história, porém, se confundem, se manipulam, se modificam na medida em que são memória, são registro... o inexorável caminho do homem é hoje demasiado longo, e há muito não se deposita na oralidade a prerrogativa da manutenção das cosmogonias. O escrito é lei! Não existem fatos, mas milhões, miríades, de versões... e os registros têm como destino, como fantasiou Chico Buarque, serem descobertos, revirados, em qualquer futuro, pelos escafandristas. Ou, na imagética atual, pelos arqueólogos da virtualidade... sempre sob a égide do "desejo, necessidade e vontade " dos usuários.

Acontecida ou não, a história está escrita, mesmo que de tantos e tão diversos ângulos e pontos de vista. E o escrito - registrado, sacramentado - é, se não lei, o único subsídio para a hermenêutica. Da interpretação renasce o passado, o que de fato existiu e o que nunca houve, indistintos. Talvez Guimarães Rosa quisesse dizer-nos... a gente escreve para provar que viveu!

Nas alegorias de Bruno Latour ou de Jorge Luís Borges, as bibliotecas são "centros de cálculo" em que se encontram os epicentros do mundo, ou mesmo os "mundos" autoreferentes e autosuficientes. Guardam nos seus ventres a matéria prima de suas profecias. Através da história, nasceram como bibliotecas-cavernas com afrescos naives em paredes... colecionaram registros em papiros e iluminuras em pergaminhos, com seus palimpsestos e projetos de hipertextos. Abrigaram os codex, delicadamente manuscritos, até que vieram os papéis. Estes proliferaram-se em livros, sofrendo a pressão sôfrega dos tipos em prensas, das máquinas de escrever e das impressoras. E neste novo milênio, o arauto Kindle anuncia o divórcio entre informação e suportes, num duro golpe ao saudosismo das gerações da celulose. Em nossos santuários do saber, vão-se os anéis, ficam-se os dedos... mudam-se os substratos, ficam-se os registros, estas tecnologias da transcendência.

E a quem concedemos as prerrogativas deste patrimônio? Não serão estes bibliotecários os verdadeiros Deuses (e não astronautas)? Pois estes senhores e senhoras, desde os garbosos e paramentados em seus guarda-pós até os entusiastas cibernéticos das redes e virtualidades, são os guardiões da aventura intelectual humana. São os Pontífices - construtores de pontes - que costuram o que se sabe sobre o que já houve com o necessário ao que ainda vai haver. No que nos trazem, ou deixam de trazer... no que preservam, ou deixam morrer ... dão forma ao conhecimento, recriam a vida, constroem a história.

Que nos ajudem, sábios e imparciais, a conhecer o que precisamos conhecer, e que esqueçamos o que é imperativo esquecer.
Que sejam os iluminados curadores, dos tempos exponenciais. Que preservem o "sempre", e previnam o "jamais".
Atreva-te!

Texto delicioso da Clarice Lispector, deliciosamente narrado pela minha esposa:

UMA HISTÓRIA DE TANTO AMOR
CLARICE LISPECTOR
CONTOS E LENDAS


Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.

Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: "Você não tem coisa nenhuma no fígado". Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café - e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.

Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:

- Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!

Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou:

- Nós comemos Petronilha.

A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe:

- Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.

Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas-gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.

O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.

Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.

21.5.09

An understanding heart is everything in a teacher, and cannot be esteemed highly enough. One looks back with appreciation to the brilliant teachers, but with gratitude to those who touched our human feeling. The curriculum is so much necessary raw material, but warmth is the vital element for the growing plant and for the soul of the child.
Carl Jung
Swiss psychologist (1875 - 1961)
Uma cornucópia de músicas...

18.5.09

TEMPO MÁGICO
(Rubem Alves)

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena

17.5.09

Charles Aznavour
Hier encore

Hier encore, j'avais vingt ans
Je caressais le temps et jouais de la vie
Comme on joue de l'amour
Et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours qui fuyaient dans le temps
J'ai fait tant de projet qui sont rests en l'air
J'ai fond tant d'espoirs qui se sont envols
Que je reste perdu ne sachant ou aller
Les yeux cherchant le ciel mais le coeur mis
en terre

Hier encore j'avais vingt ans
Je gaspillais le temps en croyant l'arreter
et pour le retenir, mme le devancer
Je n'ai fait que courir et me suis essouffler
Ignorant le pass, conjuguant au futur
Je precedais de moi toute conversation
et donnais mon avis que je pensais le bon
Pour critiquer le monde avec dsinvolture

Hier encore j'avais vingt ans
Mais j'ai perdu mon temps a faire des folies
Qui ne me laissent au fond rien de vraiment precis
Que quelques rides au front et la peur de l'ennui
Car mes amours sont mortes avant que d'exister
Mes amis sont partis et ne reviendront pas
Par ma faute j'ai fait le vide autour de moi
Et j'ai gach ma vie et mes jeunes annes
Du meilleur et du pire en jettant le meilleur
J'ai fig mes sourirs et j'ai glac mes peurs
Ou sont-ils a present, a present mes vingts ans?


Gigliola Cinquetti
Non ho l'età (tradução literal: "Não tenho idade")

Composição: Paroles et Musique: Panzeri, Nisa 1964 © 1964 - Disque Festival note: Grand prix Eurovision - Italie 1964 - 1ère

Non ho l'età, non ho l'età per amarti
Non ho l'età per uscire sola con te
E non avrei, non avrei nulla da dirti
Perchè tu sai molte più cose di me

{Refrain:}
Lascia ch'io viva un amore romantico
Nell'attesa che venga quel giorno, ma ora no
Non ho l'età, non ho l'età per amarti
Non ho l'età per uscire sola con te
Se tu vorrai, se tu vorrai aspettarmi
Quel giorno avrai tutto il mio amore per te

Lascia ch'io viva un amore romantico
Nell'attesa che venga quel giorno, ma ora no
Non ho l'età, non ho l'età per amarti
Non ho l'età per uscire sola con te
Se tu vorrai, se tu vorrai aspettarmi
Quel giorno avrai tutto il mio amore per te

16.5.09

Poesias minhas dos últimos anos...

************
(em 27/09/2006)

"O mais difícil não é saber do numinoso,
mas saber-se dele longe demais.
Nesta perversa geografia sem gozo,
é no interior que meus pecados são capitais"


"Poesia é a indulgência vestida de veludo:
Perdoa-se - pela forma - o conteúdo"

*************
(em 28/09/2006)

"Me perdi e perdido, perdoei;
esqueci, e por isso, mais amei...
Eu cresci, já de tanto que mudei
Que senti, o que sinto, já nem sei.."

******************
(em 29/09/2006)

"Eu sei demais, para ser feliz,
mas sinto tanto, que não sou triste
saber do mundo, sentir a ti
sabendo em ti que a felicidade existe"


"Responda, Pessoa, ao pobre indeciso
Tu que és poeta de mente tão vasta...
Se navegar me recorda que viver não é preciso,
A poesia é a prova de que a vida não basta."

*********************

(em 25/10/2006)

"Tem dia, tem dia
que sol quente vem
depois de chuva fria...
Tem dia, porém, tem dia,
que passo, de supetão
da eufórica alegria
à triste monotonia...
Life can be warm or cold to you
unless
You know always what to dress
Tem dia, meu Deus, tem dia
que até em inglês sai poesia."

****************

(em 08/11/2006)

"És bela...
...de uma beleza antiga /
dessas que não se faz mais /
num mundo de peitos e pernas/
cabelos e almas, artificiais."

*****************

(em 11/11/2006)

"Nasci pessoa praiera,
depois vim pros Gerais...
eu corria nas Paineiras,
hoje planto Jatobás
Vim da terra bossa-nova
Gentileza era profeta
Se aqui Guimarães é pRosa,
é Vinicius meu poeta

Lugares não estão nos lugares
Lugares são dentro da gente
Quando no espaço da alma
A geografia é diferente

Drummond galgou o mundo
Pra morrer colado ao mar
Também mergulhei no profundo
Hei de um dia ao mar voltar.”

******************

(em 11/11/2006)

Escrevo pois não calo, quando falo, desespero
Escrevo porque arde, e com a pena, me flagelo
Escrevo porque é fluido,
Defenestro, pouco cuido.
Beberia se líquido fosse
(fatal lágrima, agridoce)
se fosse sólido, comê-lo-ia (ha ha ha)
(e a dureza me mataria)

14.5.09

Reproduzo aqui texto meu que foi publicado na revista Diversa, da UFMG.

Quando ignorar é preciso
Renato Rocha Souza
professor da Escola de Ciência da Informação ECI/UFMG

Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
T. S. Eliot, The Rock (1934)

“Quem lê tanta notícia?”
Caetano Veloso, Alegria, Alegria (1968)

Quando a Unesco estabeleceu os pilares fundamentais da educação para o século 21, buscava-se propiciar uma reflexão sobre o fazer pedagógico, de forma a direcionar os esforços para o desenvolvimento de quatro competências fundamentais no aprendiz: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser. O que se percebe, entretanto, em um contexto contemporâneo de excedentes informacionais e uma propalada crise nos juízos de valores dos novos aprendizes, é a falta de um quinto pilar: aprender a ignorar. Ao exclamar a frase em epígrafe, vendo a quantidade de publicações exposta em uma banca de revistas, Caetano Veloso nem sonhava que naquele ano estava nascendo a Internet, que viria a mudar nossa relação com a informação.

As redes e tecnologias digitais propiciaram o que vem sendo chamado de “tempos exponenciais”. Os números que refletem a produção atual de registros de informação são alarmantes. Dados estimados sobre a produção mundial de conteúdo digital apontam para a cifra de 281 bilhões de gigabytes gerados apenas no ano de 2007, ou seja, quase 50 gigabytes para cada ser humano vivo. Isto equivale a mais de cinco milhões de vezes o conteúdo de todos os livros já escritos. Supõe-se que o número total de páginas na web seja próximo a um trilhão. E em 2006 estimava-se que havia cerca de seis milhões de vídeos no site Youtube, com taxa de crescimento de 20% ao mês. Comparados com os cerca de 50 milhões de minutos da vida de uma pessoa longeva, já temos hoje seguramente muito mais conteúdo disponível do que um ser humano pode assistir, se decidisse dedicar toda a sua vida para tal. Ironicamente, as redes móveis, os dispositivos celulares, os leitores de livros digitais como o Kindle, as bibliotecas digitais e os conceitos emergentes como o de wearable computing tornam cada vez mais fácil consumir informações, embora nossa capacidade de atenção e absorção seja a mesma de sempre. Como apontava T. S. Eliot no início do século passado, não há uma relação direta entre a informação e o conhecimento. Tendo a questão em mente, poderíamos nos perguntar: que conseqüências o excesso de informação traz para o ser humano, e mais propriamente, para o processo de ensino e aprendizagem?

Se pensarmos a relação da sociedade com os estoques de informações disponíveis, há uma inegável democratização do acesso, tanto pela maior disponibilidade dos meios de comunicação e a popularização das tecnologias, quanto pelo alcance a uma gama mais significativa e diversificada da produção cultural da humanidade. Torna-se mais difícil o controle das informações, pois as fontes são tantas e tão variadas que os vieses são mais explícitos e mais facilmente contornáveis. Paradoxalmente, é cada vez mais complexo estabelecer parâmetros para julgamento da qualidade da informação, exatamente porque nenhuma amostra é mais significativa diante do todo. No caso da academia, o trabalho de revisão bibliográfica, tão fundamental para a pesquisa, torna-se paulatinamente inviável. São necessários recortes explícitos e muitas vezes arbitrários, pois a quantidade de publicações e fontes disponíveis sobre assuntos específicos é freqüentemente intratável. Tanto pior: excetuando estudos em campos de conhecimento mais perenes, como a filosofia, o fenômeno da rápida obsolescência torna o conhecimento produzido cada vez mais datado.

A saúde também tem estudado as conseqüências do excesso da informação e os transtornos físicos e psicológicos decorrentes. Além das bem conhecidas lesões por esforço repetitivo, resultantes do uso excessivo e inadequado de computadores, há hoje uma série de patologias associadas direta ou indiretamente ao fenômeno, como o estresse, a síndrome burnout e alguns casos de depressão, notadamente em crianças superestimuladas. Há situações em que o excesso de estímulos ou a disponibilidade excessiva de informações tolhe a capacidade de filtragem e julgamento, fazendo com que a captura do sentido seja prejudicada. E há quem diga que são perceptíveis as mudanças nos comportamentos cognitivos das novas gerações, sendo estas visivelmente mais preparadas para lidar com estímulos simultâneos diversificados, porém dificilmente conseguindo concentrar-se seguidamente em um único deles.

Observando o processo em meus alunos, cunhei, jocosamente, o nome para uma nova doença: é Síndrome da Aquisição Desenfreada de Informações, ou simplesmente, Sadi. Esta teria como sintomatologia dois grupos distintos de comportamentos, que não raro acontecem em conjunto: os “sádicos” e os “masoquistas” informacionais. Os primeiros freqüentemente causam em outros a sensação de que há mais para ler, para atentar, para assistir, para experimentar. Não raro, os professores se encaixam nesta categoria. E os últimos tentam desesperadamente haver-se com a quantidade de referências, fontes, estímulos, sites, etc. Não há um só aluno que não se identifique neste último caso. Noto que, na medida em que se torna improvável o aprendizado autônomo pelo excesso de referências e a exigüidade de tempo, este é progressivamente substituído pelos atos de “coleta e organização” de materiais didáticos, num processo que beira o fetiche. Dessa forma, mesmo que não se consiga ler, que não haja tempo para assistir, coletam-se e organizam-se meticulosamente documentos, links, vídeos, apresentações, imagens e gravações em áudio, para consumo em um dia que nunca chegará.

Brincadeiras à parte, é algo para que, como educadores, devemos atentar. O processo de aprendizagem é fruto complexo de, dentre outras coisas, aquisição de informações, vivência de experiências, socialização, desenvolvimento de atitudes e experimentação. As novas tecnologias da informação, ao interligar pessoas e recursos, e promover maneiras diversificadas de interação entre essas pessoas (e entre estes recursos), propicia - num alcance inaudito - muitos dos ambientes onde se pode dar a aprendizagem. Há vários exemplos, como as comunidades virtuais de aprendizado, as informações disponibilizadas em bases de dados e bibliotecas digitais, as interações em redes sociais, em ambientes virtuais, etc. A Internet tem sido uma janela privilegiada onde se observam os avanços da ciência, o curso da história e as tendências da sociedade. Pela sua dinâmica democrática e diversificada, é, talvez, o meio menos enviesado para compreendermos o mundo em que vivemos. Por outro lado, a educação em tempos digitais exige novas atitudes, competências e habilidades nos discentes, e o desenvolvimento de novas visões, metodologias e preocupações por parte dos docentes.

Para evitar a sobrecarga informacional nos aprendizes, há que se estimular a capacidade de distinguir a qualidade, nos excessos e na diversidade, dos recursos disponíveis, e aqueles para os quais se deve prestar atenção. Torna-se fundamental não somente confeccionar materiais didáticos, selecionar conteúdos e promover experiências. Devemos ensinar a ignorar seletivamente. Esta talvez seja a grande competência necessária aos profissionais do século 21.

30.4.09

Randy Wanwarmer
Just When I Needed You Most

You packed in the morning
I stared out the window
And I struggled for something to say
You left in the rain without closing the door
I didn't stand in your way
Now I miss you more
Than I missed you before
And now where I'll find comfort, God knows
'Cause you left me
Just when I needed you most
Yes, you left me
Just when I needed you most
Now most every morning
I stare out the window
I think about where you might be
I've written you letters that I'd like to send
If you would just send one to me

'Cause I need you more
Than I needed before
And now where I'll find comfort, God knows
'Cause you left me
Just when I needed you most
Yes, you left me
Just when I needed you most

You packed in the morning
I stared out the window
And I struggled for something to say
You left in the rain without closing the door
I didn't stand in your way

Now I love you more
Than I loved you before
And now where I'll find comfort, God knows
'Cause you left me
Just when I needed you most
You left me
Just when I needed you most
Oh, you left me
Just when I needed you most

23.4.09

Robert Frost
The Road Not Taken



TWO roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveller, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same, 10

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Mountain Interval. 1920)